"Meio capenga, meio poético" relato da visita da Barrica ao CAPS II
Mas hoje não, hoje parecia que algo sairia do convencional. Então, fiz o que me cabia fazer, esperei atento.
Era próximo das duas horas da tarde, eu já comecei a ouvir ao longe, uma movimentação diferente. Então, pensei com "meus pregos velhos":
- Eu sabia!
O que eu ouvia? Bem, no início eu não consegui decifrar direito, era uma voz em tom meio agudo, uma fala bem rápida, uma fala alta, e risadas. Eu estava ouvindo risadas. E isso me deixou bem animado. Continuei esperando.
Conforme ia se aproximando a voz, eu vi que tinha no pátio do CAPS, uma pessoa diferente naquela tarde, um ser bem colorido, bem colorido mesmo, animada e observadora. Saiu de traz da bergamoteira, com um galho de árvore na mão, servindo de apoio. Parecia uma andarilha, era, ela andava por ali naquela tarde.
Me olhou! Eu fiquei ali, meio torto, meio capenga, meio tímido. Gelei. Há tanto tempo que ninguém me olhava daquele jeito. Ela me achou lindo, vintage, demolição, velho...poético, ela disse.
A psicóloga, a Mirian vinha acompanhando ela e mais umas moças discretas, então ela, que não parava de falar começou a filosofar.
Me observou bem, e disse para a Mirian:
- Mirian, tá vendo esse banco, meio desajustado, torto, "judiado" do tempo? Ele se parece uma pessoa que está meio triste, cansada, quase nem serve pra nada. Mas daí, eu coloco o meu pé aqui, olha! E ele volta para o prumo. Tá vendo Mirian?
O meu pé é como se fosse você, a psicóloga, que dá aquela força e lembra ao banco, o seu sentido. Viu como você é importante Mirian? Você e uma Sertralinazinha, e a pessoa já fica nova.
Todos riram e concordaram com ela. E eu? Fiquei impressionado por ter sido visto, ter sido tocado, ter sido alvo de uma reflexão, de uma poesia.
Ela continuou, foi para a sala de artes, e ficou um bom tempo lá, eu só ouvia as risadas e conversas. Mais tarde ela partiu, e eu fiquei com a sensação de que a visita dela foi muito especial pra todo mundo que estava lá.
Depois, ouvi pelas calçadas, que aquela figura andarilha e animada, se chama Palhaça.
Pois é, hoje tinha tudo pra ser uma sexta-feira comum, e não foi. Eu conheci uma palhaça. E espero que assim como ela ficou aqui, registrada na minha memória, eu também tenha deixado algo nela."
Banco de madeira debaixo da árvore do CAPS II
Depois de 18 anos, eu voltei ao CAPS, saí de lá com uma sensação que eu não estava conseguindo colocar em palavras. Era um misto de emoção, alegria, nostalgia, sentido. Então, achei aqui uma forma de expressar o quanto essa visita ao CAPS II Adulto de Chapecó, foi importante e especial pra mim e para as pessoas que acompanharam.
Essa visita foi uma das ações da MOSTRA ITINERANTE - Palhaça Barrica 25 anos. Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público N° 031/2025 - PNAB MULTILINGUAGENS.
Por Michelle Silveira da Silva
Fotos de Luciéle Pompeo




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