Cachorros, uma oca subterrânea, troca de dentes e um suspiro colorido na janela (Relato das intervenções da Barrica nas Terras Indígenas de Chapecó/SC)

Eu amo fazer intervenções, e não há nenhum exagero nessa fala. Não mesmo. 

Eu me criei, como palhaça, fazendo intervenções na universidade (UFSM), e foi justamente o fato de conseguir me comunicar com diferentes pessoas nas intervenções, que me tornou uma apaixonada pela palhaçaria.

Então, quando pensei em propor essa MOSTRA comemorativa aos 25 anos da Palhaça Barrica, eu pensei: 

- Tem que ter espetáculos, mas tem que ter intervenções também, porque eu sou isso.

Duas das intervenções que fizeram parte da programação da Mostra, foram realizadas nas Escolas Indígenas, do Toldo Chimbangue e da Aldeia Kondá.

A minha expectativa e animação por esses momentos estavam altos. Eu peguei uma sacola, destas coloridas e de plástico que eu vivo comprando na loja Utilíssima, e coloquei alguns objetos que eu uso hoje, que eu já usei há anos atrás, que eu achava que podia dar jogo com as crianças.


Um elástico preto para retomar a cena do equilíbrio sobre a corda bamba. A cobrinha articulada, para demonstrar habilidade e coragem ao interagir com o animal. Um penico, pois é algo super importante hoje, que a Barrica descobriu que tem bexiga baixa. Um passarinho que voa e encanta as crianças, entre outros.


Comprei uma bota também e um guarda chuva (mais um), porque o dia prometia muita chuva, e eu disse: 

- Vou com chuva mesmo, vou interagir com o que a natureza mandar. 

Porque se teve uma coisa que eu aprendi quando trabalhei na terra indígena há 18 anos atrás, é que a natureza é a força.

Cheguei na Escola, me arrumei e Barrica foi para fora da escola, eu queria chegar como palhaça. Então tocou o sinal para o lanche, e as crianças começaram a sair das salas e logo avistaram a palhaça lá fora, debaixo do quiosque de palha, conversando com os cachorros. 

Aos poucos, uns pingos de chuva leve caindo, Barrica foi em direção a escola, e as crianças na grade aguardando a chegada. E a receptividade foi maravilhosa. Tinha uma cachorrinha pirata (de um olho só) que se atentou de morder as minhas canelas, e as de todo mundo. Uns dentinhos fininhos, e Barrica só a fugir do temido animal, e as crianças protegendo.


A interação foi linda, divertida, envolvente e fluída. 

Em determinado momento a palhaça propõe um trenzinho com as crianças e professores e saem da escola rumo ao quiosque de palha. Lá, em formato de roda, a professora começou a puxar umas músicas que eles cantam na escola, algumas em idioma Kaingangue, e a palhaça trouxe algumas que ela canta nos hospitais também e a partilha foi linda demais.



A tarde a visita foi a Aldeia Kondá, o coordenador do CRAS conduziu a Barrica até a escola, que ela disse que não sabia onde era, e ele acreditou! 

Ele foi mostrando o espaço, o centro cultural, a oca subterrânea, até a chegada a escola. Onde um novo universo se abre. A palhaça vai de sala em sala, procurando um lugar pra ela. Aulas diferentes fizeram a alegria da Barrica, que pode expressar e identificar emoções, ler textos com os alunos, e criar seu nome em idioma Kaingangue.

Uma plateia de pequenos, trocando dentes, e de olhos atentos e brilhantes. Na saída, uma conversa pela janela leva Barrica a comprar "suspiros" na vendinha da Aldeia. E também uns pães que deu para os cachorros que estavam pulando nela. 



Enfim, caos total na saída. Caos alegre! Caos potente! Caos de afeto!

E assim foram as intervenções, intensas, generosas, criativas, envolventes, bem do jeito que eu gosto que sejam. Ficou a vontade de retornar. 

MOSTRA ITINERANTE - Palhaça Barrica - 25 anos!

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público N° 031/2025 - PNABMULTILINGUAGENS.

Texto de Michelle Silveira da Silva 

Fotos de Diogo José


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